Gestão

Tarifaço dos EUA no transporte: o risco real está na concentração da sua carteira

Presidente dos Estados Unidos anuncia novas tarifas de importação em coletiva de imprensa

Entrou em vigor mais uma camada de tarifa dos Estados Unidos sobre produto brasileiro. São 12,5% novos, empilhados sobre uma faixa de 25% que já valia, chegando a encostar nos 37,5% sobre a exportação em alguns casos. Na lista aparecem alumínio, algodão, eletrônicos, baterias de lítio e tabaco. O Brasil entrou junto com dezenas de outros países.

Você vai ler isso em manchete de economia o dia inteiro. Trump, Lula, reciprocidade, diplomacia. Eu trabalho com transportadora, depois de olhar por dentro mais de 2.000 operações, então vou tratar aqui da parte que nenhuma dessas manchetes cobre. O que essa tarifa faz com o seu pátio. Porque todo esse volume que sai da usina, da lavoura e da fábrica rumo ao porto anda em cima de um eixo. Muitas vezes o seu.

Como uma tarifa lá fora vira caminhão parado aqui

O caminho é mais curto do que parece. O embarcador que exporta algodão ou alumínio olha a nova conta, vê a margem encolher e faz a única coisa que um empresário racional faz. Segura embarque, renegocia, corta volume. Ele não avisa por carta. Ele simplesmente cota menos frete no mês que vem.

E aí a rota que você achava firme começa a rarear. A carga de exportação tem um agravante que o transportador conhece bem: costuma ser ida cheia e volta vazia. Você leva a mercadoria até o porto e traz ar de volta. Quando o volume dessa rota cai, você não perde só o frete que sumiu. Você fica com caminhão dedicado àquele fluxo rodando pela metade, ou parado no pátio, queimando parcela de financiamento e depreciação sem gerar um real.

Um caminhão parado custa entre R$ 800 e R$ 1.200 por dia de custo fixo.
A tarifa é dos Estados Unidos.
A conta do pátio parado é sua.

Choque externo desse tamanho não pergunta se você está pronto. Ele só chega. E quando chega, ele não cria o problema. Ele revela o que já estava frágil na sua operação antes da manchete.

O que o tarifaço revela: a concentração da carteira

Deixa eu ser direto com você. Esse é o tipo de conta que todo dono devia encarar antes de o problema estourar, não no meio dele.

O que derruba transportadora em momento de choque é a concentração de carga que estava lá o tempo todo, escondida atrás de um faturamento que parecia saudável. A empresa que vivia bem com dois ou três embarcadores de um mesmo setor descobre, no pior momento possível, que nunca teve carteira. Teve dependência com cara de estabilidade.

Enquanto o volume corria, essa concentração parecia eficiência. Cliente grande, rota conhecida, operação redonda. No dia em que o setor daquele cliente entra numa lista de tarifa, a mesma concentração vira a corda no pescoço. E o dono que media o negócio pelo faturamento do mês nunca enxergou esse risco, porque faturamento não mostra de onde vem o dinheiro nem quão frágil é a fonte.

Faturamento grande esconde carteira frágil

Faturamento alto com carteira concentrada é volume grande apoiado em base estreita. Um tranco lá fora, um setor na mira, e a firmeza vira susto em quarenta e cinco dias. O placar que interessa nunca foi o tamanho da receita. É a solidez de onde ela vem e a margem que sobra depois do custo por km.

3 aplicações práticas para esta semana

Nada aqui custa dinheiro. Custa você sentar e olhar o próprio número antes que o mercado obrigue. Faça nesta ordem.

  1. Levante o percentual do faturamento que depende dos cinco setores citados e da exportação em geral. Se um único setor passar de 30% da receita, escreva na folha: isso é concentração de risco, não é carteira. Resultado esperado: em um dia você enxerga o tamanho real da sua exposição a um choque que não controla.
  2. Puxe o CPK e a margem de contribuição das rotas que atendem esses embarcadores e olhe o retorno vazio de cada uma. Se o retorno vazio já passa de 35% com o volume cheio, uma queda de carga dobra o estrago, porque o custo continua e o frete some. Resultado esperado: você sabe quais rotas viram prejuízo no primeiro corte de volume.
  3. Liste seus cinco maiores clientes, calcule o cost-to-serve de cada um e marque os que estão expostos à tarifa. Resultado esperado: você descobre quem pode cancelar embarque antes de o cliente te ligar, e ganha tempo para reagir em vez de apagar incêndio.

Some a isso uma revisão dos contratos indexados e das cláusulas de reajuste. Frete fechado sobre volume que pode cair é prejuízo com data marcada. Se não existe gatilho de renegociação por queda de demanda, essa é a conversa da semana com o seu comercial.

Quem conhece o próprio número atravessa o choque

Toda economia, mais cedo ou mais tarde, manda notícia ruim. Tarifa, dólar, juros, greve, safra fraca. Vai sempre chegar alguma coisa que você não controla. A pergunta que decide o seu ano não é se o choque vem. É se ele te encontra conhecendo o próprio número ou te encontra no escuro. O transportador que sabe o CPK de cada rota, que não colocou metade da receita num setor só e que lê o próprio resultado antes de ler o jornal reprecifica, remaneja frota, troca de eixo econômico e segue rodando. Em mais de 2.000 transportadoras eu vi sempre o mesmo desfecho. Quando o aperto chega, quem sobra é quem conhecia a própria carteira antes do aperto bater na porta.

Numa conversa de diagnóstico, um especialista da FB Consult mede quanto do seu faturamento está preso em carga exposta ao tarifaço, qual o CPK das rotas na mira e onde está a gordura para segurar a margem se o volume cair.
Consultoria · FB Consult
Meça a exposição da sua carteira antes de o volume cair

Conteúdo da newsletter Ecossistema TRC Lucrativo, de Flávio Batista. Ler no LinkedIn →