Tem um ladrão na sua frota. Ele rouba todo mês, na sua frente, e nunca foi flagrado. O nome dele aparece no seu extrato como "combustível", e você assina o cheque sem desconfiar.
Vou te contar como prender esse cara. Não com câmera, não com sermão na garagem. Com quatro números.
Senta aqui, que esse caso vale mais de cem mil reais por ano.
A cena do crime
Uma frota do seu porte queima perto de R$ 300 mil de diesel por mês. É a segunda maior despesa da empresa, atrás só da folha. E é a única que você paga praticamente no escuro, confiando na nota que o posto manda.
Agora segura essa. Um desvio de só 3% nesse volume são R$ 9.000 por mês. R$ 108 mil por ano. Saindo do seu caixa, todo mês, sem aparecer em relatório nenhum. Ninguém rouba R$ 108 mil de uma vez. Rouba 200 litros aqui, 150 ali, espalhado em 30 caminhões, diluído em mil abastecimentos. Por isso ninguém vê.
O perfeito crime de frota tem essa cara. Pequeno demais pra dar na vista. Repetido o suficiente pra quebrar a margem.
Vamos aos suspeitos.
Suspeito 1: o abastecimento fantasma
A nota diz 400 litros. O tanque recebeu 350. Os 50 litros que faltam viraram dinheiro na mão de alguém, ou litro no carro errado. A empresa pagou por combustível que nunca entrou na frota.
Esse é o mais comum, e o mais difícil de pegar no olho. Porque no papel está tudo certo. A nota fecha. O pagamento fecha. Só não fecha com o que o caminhão realmente bebeu.
Suspeito 2: a bomba descalibrada
Tem bomba de posto conveniado que marca 100 litros e entrega 96. Nem sempre é má-fé. Às vezes é equipamento velho, aferição vencida. O resultado pra você é o mesmo. Você paga 100, leva 96, e multiplica esse erro por todo abastecimento do mês. A bomba não te avisa. Ela só conta a favor de quem vende.
Suspeito 3: o consumo inflado
Esse é esperto. Quando some diesel, o número precisa de uma desculpa pra fechar. Então o consumo do veículo "piora" de repente. O caminhão que fazia 2,4 km por litro passa a fazer 2,1, e ninguém questiona, porque consumo varia mesmo, com carga, rota, motorista. O desvio se esconde atrás de uma justificativa técnica que parece legítima. É o álibi perfeito.
Suspeito 4: o conluio no posto
O mais grave. Frentista e motorista, ou gestor e posto conveniado, combinados. A nota sai cheia, o tanque entra pela metade, a diferença é dividida. Quando existe esse arranjo, nenhuma planilha de média de consumo pega, porque os dois lados do papel estão maquiados pra bater.
Quatro suspeitos. Todos com álibi. E você, sem prova nenhuma, continua assinando o cheque.
Até cruzar os números.
A virada: o que os quatro suspeitos não conseguem maquiar juntos
Aqui o caso vira. Cada suspeito sabe esconder a própria parte. Nenhum deles controla as quatro pontas ao mesmo tempo. E é exatamente isso que a conciliação de abastecimento faz: coloca os quatro números na mesa, lado a lado, e força eles a baterem.
São esses quatro:
1. Litro comprado. O que a nota fiscal diz que você pagou.
2. Litro que entrou. O que a bomba ou a telemetria registra que realmente caiu no tanque.
3. Km rodado. O que o veículo de fato andou no período, pelo hodômetro ou rastreador.
4. Consumo esperado. O que aquele caminhão, naquela operação, com aquela carga, tem que fazer por litro.
Cada número desses, sozinho, mente fácil. Os quatro juntos não conseguem.
O abastecimento fantasma some na hora que litro comprado não bate com litro que entrou. A bomba descalibrada aparece na mesma linha. O consumo inflado cai por terra quando você compara o consumo declarado com o esperado daquele veículo, e vê que a conta só fecha se o caminhão tivesse virado bebedouro do dia pra noite. O conluio racha quando o km rodado não justifica o volume que a nota cobrou.
O furo não aparece quando você olha um número. Aparece no instante exato em que os quatro não se encontram. É ali que o ladrão fica sem álibi.
Conciliação de abastecimento é uma das rotinas da Gestão 360º de Frotas. Numa conversa com um especialista, a gente cruza os quatro números da sua operação e mede, em reais, o tamanho do que está sumindo neste mês.
A segunda parte do caso: você não compra diesel, você aceita o preço
Pegar o ladrão interno é metade do trabalho. A outra metade é como esse diesel entra na empresa.
A maioria das frotas do seu porte negocia combustível no susto. Liga pro posto, pergunta o preço do dia, abastece. Centavo a mais ou a menos parece detalhe. Não é.
Faz a conta comigo. Sua frota queima perto de 75 mil litros por mês. Um centavo no litro são R$ 750 por mês. R$ 9.000 por ano. Em um centavo. Cinco centavos de diferença, que é nada na bomba, viram R$ 45 mil por ano. Centavo no litro vira fortuna no fechamento do ano.
Diesel desse volume não se negocia no achismo. Se negocia com número na mão: volume consolidado de todos os caminhões, contrato com cláusula de preço, bomba do conveniado auditada de verdade. Quem chega com 75 mil litros consolidados e dado na mão senta numa mesa diferente de quem liga perguntando "quanto tá hoje".
O dono compra diesel pelo preço que te oferecem. O empresário compra pelo preço que ele consegue defender com volume e contrato. A diferença entre os dois mora no fechamento do ano.
O fim do caso
O ladrão dos litros não foge de câmera, de cadeado nem de bronca em reunião. Ele foge de uma coisa só: do cruzamento dos números. Enquanto você olhar diesel como uma linha única no extrato, ele vai continuar trabalhando. No dia que você cruzar litro comprado, litro que entrou, km rodado e consumo esperado, ele perde o álibi e o esconderijo no mesmo movimento.
Em mais de 2.000 transportadoras, o roteiro se repete. A frota que não concilia o diesel acha que tem custo alto. A frota que concilia descobre que tinha furo, tampa o furo, e o custo cai sem trocar um caminhão sequer.
Semana que vem eu abro outro caso. O da hora extra que ninguém pediu e todo mundo paga.
Publicado originalmente na newsletter Ecossistema TRC Lucrativo, de Flávio Batista. Ler no LinkedIn →
