Assim como você, eu passei anos vendo dono de transportadora negociar pneu como quem negocia commodity. Liga para 3 fornecedores, compara o preço unitário, fecha com o mais barato e considera que economizou.
A conta que decide esse item não está no preço da nota. Ela está no que aquela borracha entrega em quilômetro rodado antes de virar sucata. E a diferença entre uma frota que administra isso e uma que não administra é da ordem de grandeza do lucro anual da empresa.
Um pneu radial de linha pesada nasce com 3 vidas possíveis. A maior parte das frotas brasileiras usa 1 e joga as outras 2 no ferro velho, sem nunca ter medido o tamanho do que foi jogado fora.
A conta das 3 vidas
Premissas na mesa, com a mesma frota que eu venho usando nestas cartas: 40 conjuntos rodando 12 mil quilômetros por mês cada um, 22 pneus por conjunto, pneu novo a R$ 2.400 e recapagem a R$ 850. Confira cada número com a sua nota fiscal antes de aceitar a conclusão.
Vida 1, o pneu novo. Entrega em média 120 mil quilômetros até a profundidade mínima de sulco. R$ 2.400 divididos por 120 mil dão R$ 0,020 por quilômetro, por pneu. Multiplicado por 22 pneus, o custo de pneu da sua operação fica em R$ 0,44 por quilômetro rodado.
Vidas 2 e 3, as recapagens. Uma carcaça preservada aceita 2 recapagens, cada uma entregando cerca de 90 mil quilômetros. R$ 2.400 do pneu novo mais 2 recapagens de R$ 850 dão R$ 4.100 para 300 mil quilômetros, ou seja, R$ 0,0137 por quilômetro, por pneu. Nos 22 pneus, R$ 0,30 por quilômetro.
A diferença. São R$ 0,14 por quilômetro entre a frota que usa 1 vida e a que usa 3. A sua operação roda 480 mil quilômetros por mês somando os 40 conjuntos. R$ 0,14 vezes 480 mil dão R$ 67 mil por mês.
Coloque isso ao lado do lucro mensal de R$ 80 mil da mesma frota. A gestão de carcaça sozinha, sem trocar de fornecedor e sem negociar 1 centavo a menos no pneu novo, vale 84% do resultado da empresa.
Corta pela metade, como eu sempre faço, e assuma que só metade das suas carcaças chega em condição de recapagem. Ficam R$ 33 mil por mês, R$ 400 mil no ano.
Carcaça é ativo, e ativo se controla por número
O que separa as 2 contas não é sorte nem marca. É o que acontece com a carcaça entre a compra e o descarte.
Carcaça morre por 3 motivos, e os 3 são de gestão. Rodar com pressão fora da especificação, que come a estrutura por dentro sem aviso. Deixar passar da profundidade mínima de sulco, que expõe a lona e transforma um pneu recapável em sucata. E alinhamento fora do ponto, que gasta a borracha em desenho irregular e derruba a aceitação da carcaça na recapadora.
Nenhum desses 3 exige investimento. Exige rotina medida, com responsável e com número lido toda semana.
O indicador que resume isso tem nome: Taxa de Aproveitamento de Carcaça. É o percentual dos seus pneus que chega ao fim da primeira vida em condição de receber recapagem. Frota que controla trabalha acima de 80%. Frota que não controla costuma descobrir que está abaixo de 40% no dia em que faz essa conta pela primeira vez.
Sobre marca, uma frase que eu repito em toda mesa: a melhor marca é a que entrega o menor CPK na sua operação. Não existe resposta genérica, existe medição na sua rota, com o seu peso e o seu motorista.
O que eu faria na sua operação ainda esta semana
- Levante quantas carcaças você mandou para sucata nos últimos 12 meses e quantas foram para recapagem. A divisão entre as duas é a sua Taxa de Aproveitamento de Carcaça.
- Calcule o seu CPK de pneu real: total gasto com pneu e recapagem nos últimos 12 meses dividido pelo total de quilômetros rodados. Esse número sozinho já muda a sua próxima negociação.
- Meça a pressão de 1 conjunto inteiro amanhã de manhã, antes de sair, com calibrador aferido.
- Estabeleça o sulco mínimo de retirada por escrito e coloque um responsável com nome para conferir. Pneu que passa desse ponto deixa de ser ativo e vira despesa.
Item barato é onde mora o dinheiro grande
Pneu costuma ser tratado como compra de rotina, resolvida por telefone em 10 minutos. Diesel tem reunião, financiamento tem comitê, e pneu tem cotação.
A escada Lucro, Liberdade e Equity passa por essa inversão. Os itens que ninguém disputa são exatamente os que acumulam desperdício por anos, porque desperdício sem dono nunca aparece no relatório de ninguém.
Em mais de 2.000 transportadoras atendidas eu vi sempre o mesmo padrão. O dono sabe o preço do pneu de cabeça e não sabe o custo dele por quilômetro.
Qual é o seu CPK de pneu hoje, e quantas das suas carcaças voltaram para a rua no último ano?
Na sexta, a próxima carta abre a fatura completa de trocar 1 motorista, item por item.
Publicado originalmente na newsletter Ecossistema TRC Lucrativo, de Flávio Batista. Ler no LinkedIn →
