Quando um motorista pede a conta, a empresa registra uma rescisão e abre uma vaga. É assim que o evento entra no sistema, e é por isso que ele parece barato.
A fatura real desse dia não chega junto. Ela chega parcelada, ao longo dos 4 meses seguintes, distribuída em linhas que ninguém soma porque cada uma delas mora em um centro de custo diferente. Rescisão fica no RH, diesel fica na operação, caminhão parado fica no comercial e sinistro fica no seguro.
Eu montei essa fatura item por item para você somar de uma vez.
A fatura
Premissas na mesa: 40 caminhões, 40 motoristas, R$ 2 milhões de faturamento por mês, margem líquida de 4%, o que dá R$ 80 mil de lucro mensal e R$ 960 mil no ano. Cada caminhão roda 12 mil quilômetros por mês e fatura R$ 50 mil. Confira cada linha com o seu financeiro.
Linha 1, rescisão. Aviso, férias proporcionais, décimo terceiro e multa de FGTS em um contrato de porte médio: R$ 4.000.
Linha 2, o caminhão parado esperando substituto. Este é o item mais caro e o menos contabilizado. Com o mercado como está, preencher uma vaga leva de 15 a 30 dias. Trabalhando com 15 dias, o custo fixo do ativo continua correndo: metade dos R$ 18 mil mensais dá R$ 9.000, e a receita que aquele caminhão deixa de gerar no período é de R$ 25 mil.
Linha 3, recrutamento, seleção e exames. Anúncio, triagem, admissional, toxicológico e psicotécnico: R$ 1.300.
Linha 4, integração e treinamento. 5 dias com salário e encargos correndo sem produção: R$ 1.500.
Linha 5, a curva de aprendizado. Com 12 mil quilômetros por mês, média de 2,5 quilômetros por litro e diesel a R$ 6,00, o caminhão consome cerca de R$ 28,8 mil de diesel por mês. Um consumo 8% pior por 90 dias custa R$ 6.900.
Linha 6, risco elevado no período de adaptação. Motorista recém-admitido tem probabilidade maior de avaria, de multa e de sinistro leve. Provisão conservadora de R$ 2.000.
Total: R$ 49.700 por motorista trocado. Sem contar cliente incomodado com atraso, sem contar o tempo do seu gestor operacional e sem contar o efeito no grupo que ficou.
Agora multiplique pelo seu turnover
O setor trabalha com rotatividade que chega a 40% ao ano em muitas operações. Numa frota de 40 motoristas, isso significa 16 trocas por ano.
16 vezes R$ 49.700 dão R$ 795 mil por ano. O lucro anual da empresa é R$ 960 mil. A rotatividade consome 83% do resultado, e ela não aparece em nenhuma linha do seu demonstrativo com esse nome.
Corta pela metade, como eu sempre faço. Ficam quase R$ 400 mil por ano, o equivalente a 5 meses de lucro da operação inteira.
O que realmente segura motorista
Quando eu abro essa conta, a primeira reação costuma ser aumentar salário. É a resposta cara e é a que resolve menos, porque o concorrente cobre a diferença na semana seguinte e a conta recomeça do zero.
O que aparece nas operações que seguram gente é bem menos glamouroso e bem mais barato. Escala previsível, com o motorista sabendo quando volta para casa. Pagamento correto e na data, sem discussão de diária. Manutenção em dia, porque ninguém aguenta rodar em equipamento que quebra. Chefia que trata adulto como adulto. E critério claro de premiação, com regra escrita e número que o próprio motorista consegue conferir.
Isso tem nome dentro da nossa metodologia: Motorista como Ativo Estratégico. Ativo se mede, se mantém e se protege, e a conta lá de cima é exatamente o preço de não fazer nenhuma das 3 coisas.
O que eu faria na sua operação ainda esta semana
- Calcule o seu turnover real dos últimos 12 meses: desligamentos divididos pelo quadro médio. Se passar de 25%, você tem uma fatura escondida do tamanho da que está aqui em cima.
- Levante o tempo médio real entre o desligamento e o substituto rodando sozinho. É esse número que multiplica todas as outras linhas.
- Registre o motivo de saída das últimas 10 rescisões, com a palavra do próprio motorista.
- Monte a conta acima com os seus números e apresente para a sua diretoria. Rotatividade só entra na pauta quando ela vira reais por ano.
Gente é a linha que não tem cotação
Você negocia diesel, negocia pneu, negocia seguro e negocia taxa de financiamento. Motorista é o único item de custo grande da sua operação que não tem tabela, não tem fornecedor alternativo e não se resolve com uma ligação.
A escada Lucro, Liberdade e Equity depende disso mais do que parece. Frota é dinheiro, e dinheiro se compra em 60 dias com crédito aprovado. Equipe estável leva anos para construir e é o que faz a empresa funcionar sem o dono dentro dela.
Em mais de 2.000 transportadoras atendidas eu vi sempre o mesmo padrão. A empresa tem planilha de custo por caminhão e não tem conta nenhuma sobre o custo de perder gente.
Quantos motoristas saíram da sua empresa nos últimos 12 meses, e quanto isso custou em reais?
Na terça, a próxima carta pergunta quantos embarcadores sentaram com você neste ano.
Publicado originalmente na newsletter Ecossistema TRC Lucrativo, de Flávio Batista. Ler no LinkedIn →
